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A CAPELA DE SÃO PEDRO

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Parada, feito papel recortado e branco no céu, a lua desistira de seguir caminho. Prateava o rio Bacanga, atenta a tudo que acontecia na capela de São Pedro. Como ninguém havia percebido, resolveu se aproximar mais um pouquinho, até que conseguiu ouvir as conversas. As estrelas cadentes a seguiram, riscando atalhos de um lado para o outro.

- Mas tu sabe que não posso, tu é viúvo faz pouco tempo – Dizia a índia com os olhos faceiros, acariciando a ponta da flecha. Falava calmo, maciez de carne de bacuri.

- Mas se a minha mulher morreu, e fiz o que pude, vou esperar o que? Por acaso, lá sou corvo, pra manter fidelidade mesmo depois da infelicidade? – Retrucou cabisbaixo, o tocador de zabumba do boi de Guimarães – E tu sabe que se não for hoje, só para o ano. Tu já mediu a distância de Axixá pra Guimarães? O boqueirão né pra qualquer uma atravessar, tem que ter coragem.

- Boqueirão?

- É o reviramento das águas. Treme a embarcação todinha. A gente só não morreu porque Deus acode. Mas eu enfrento todo ano por causa de ti, repara onde estou – E mostrou-se, como se só agora fosse possível vê-lo. Até em pé ficou, para não ter dúvida de estar ali mesmo à sua frente.

Ela sorriu, sentindo aquilo mexendo por dentro. Existia desde a primeira vez em que se viram, mas logo descobriu que ele era casado. Mas jamais o esquecera com aquele sorriso de fogueira, iluminando e queimando.

Agora ficara pensativa, admirando o Batalhão da Maioba que já estava no terreiro, fazendo tremer o chão. Matracas suspensas e cantorias vibrantes, mais altas que a escadaria.
- Me fala mais desse Boqueirão – Pediu como se quisesse ver. Ajeitou o cocar, e cantarolou um pedaço da toada que vinha lá de baixo.

- As águas vão tudo para lá, parece que não sabem outro caminho no mar. As ondas são altas, muito altas. Maiores que – E se pôs a procurar alguma coisa ali para comparar. Espiou de um lado para o outro, sem achar definição. Como ela nunca tinha visto, arriscou – Mais altas que a capela de São Pedro. Pode acreditar!

- Mais altas que a capela de São Pedro?

Para que não restasse dúvida alguma, encheu-se de coragem. Ajeitou a zabumba entre as pernas, e arrematou:
- E ainda passa uns – Espiou mais uma vez em direção à capela – três palmos.

Ela ainda sorria, quando viu os outros brincantes lhe chamando. Era a hora do boi de Axixá invadir o terreiro, com sua cadência lenta, que se confunde com a batida dos corações. Mas ela não seguiu, espiou a lua, que também lhe espiava. Desde que entrara no boi, era a primeira vez que não dançava.

Deixou que os seus olhos se perdessem nos dele. O arrastou pelas mãos para se confundirem à multidão e juntinhos viram as brincadeiras. Quando se beijaram, ele sentiu o frenesi das zabumbas no peito, e ela dançou coreografia de muito querer, guardada naquele abraço. Desejos e festejos cresceram, zabumborquestrando por dentro deles.

A lua continuava parada, boquiaberta e sem se mover vendo a alegria dos batalhões, mulheres e homens, em rebuliço de Boqueirão. As claridades do outro lado do mundo é que não entendiam, o que havia acontecido com aquela noite que não sabia amanhecer.

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