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Foram as formigas criando caminhos na parede do quarto, que lhe fizeram acordar àquelas horas da madrugada. “Ou o dia já havia tropeçado”? – Pensou espiando por entre a brecha do lençol que lhe envolvia o pescoço e a cabeça.

 

Levantou-se, abriu só um pouquinho a janela, resmungou do vento frio que vinha lá de fora, mas alegrou-se ao ver o lusco-fusco se derramado pelo quintal. Em seguida, se voltou para os caminhos escuros que as formigas criavam, feitos rios subindo em direção à coberta de palha.

- Essas não deixam ninguém dormir, é nesse leva e traz de nunca acabar. Um dia desses boto todo mundo para fora. Quem não sabe silenciar, não serve para morar.

Só depois de passar o café, é que foi até o quarto da neta. Entrou bem devagar, como se a sua sombra é que caminhasse. Aproximou-se e acariciando os cabelos da menina, lhe chamou, com voz quase não dita:

- Acordar, minha flor, tá na hora.
- Eu já estava acordada, vó. Ouvi também as formigas caminhando nas paredes do seu quarto.

As duas na mesa da cozinha se olhavam. Uma admirando o começo da vida, e outra o porto de chegada.
- Para aonde vamos vó?
- Vamos lá na beira do rio, buscar as friezas. Vê esses dois potes, aí? – E apontou com a boca. A neta até estranhou a pergunta, pois eles sempre estiveram ali. Dois potes, um filtro, e seis copos de alumínio pendurados – Tudo isso pertenceu a minha bisavó. É a garantia que na nossa família jamais vai nascer curacanga.

Com a xícara quase na boca, a neta voltou a abaixa-la, deixando-a sobre a mesa. Percebendo a cara de surpresa que menina havia feito, a avó continuou:
- Eu mesmo tive seis irmãs. Assim como minha avó, e duas irmãs dela. As curacangas são sempre a sétima mulher.
Esses copos só deixam nascer seis. Ficarão para ti, para que o medo não te acompanhe na gravidez. Vamos florzinha, que vou te ensinar uma coisa.

Rumaram de mãos dadas até a beira do rio. Lá, a avó pôs-se de cócoras, espiando como se procurasse alguma coisa dentro das águas. Depois de algum tempo, irrompeu:
- Ah, eu sabia que estava aqui! – E afundando a mão, tirou uma jia pequena. Depois retirou mais três e as entregou à neta. No caminho de volta, vendo a pressa da avó, quis saber:
- Por que viemos tão cedo, vó?
- É nessa hora que as jias guardam as friezas.

Na cozinha, a avó abriu os potes e pediu que ela colasse as três jias que trazia na mão em apenas um. Em seguida, no outro pote, soltou a que trazia solitária em sua mão. Derramou água até enchê-los completamente, e disse:

- Quando o sol estiver ali, sobre o galho da mangueira, feito galinha no poleiro, abra os dois potes e tome um pouco de água. Vou dormir mais um pouco, ainda tenho um resto de sono caminhando pela cabeça.

A neta brincava no quintal sem esquecer a andança do sol no ceú, até que o viu atravessando por cima do galho. Correu ansiosa, e ao abrir o primeiro pote, sentiu a frieza das águas. Ao abrir o segundo, demorou a acreditar no que via. Á água não podia ser bebida, era gelo branco e duro, refletindo o seu rosto!

Correu até o quarto para contar a avó. A encontrou já acordada, sentada na beirada da rede, ajeitando o terço puído no pescoço. Ao ver os olhos saltados de espanto, a avó lhe trouxe para dentro de um abraço, explicando:

- As jias chamam as chuvas, quando veem que as nuvens estão muito leves. Controlam os rios, e se não fossem elas, as friezas do mundo sequer existia. Não se preocupe, as três jias estão dormindo, assim que o calor atravessar o batente da cozinha, elas acordam. Estão aí, cuidando do mundo, desde quando ele nem tinha nome.

______________
Este conto é a segunda experiência em que o retrato inspira a história. É sempre mais trabalhoso, porque os elementos estão postos, mas também é mágico imaginar o porquê estão. Na Baixada, a sétima filha mulher se transforma em curacanga.

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