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ALCÂNTARA E SÃO LUÍS, SOB O MESMO CÉU,

May 22, 2020

 

Na ilha do Livramento, em Alcântara, era ela quem curava tudo. Dos amores às dores, à qualquer hora, quando lhe batiam à porta. Levantava com paciência, desamarrotava com as mãos o vestido fino, espiava o tempo lá fora e ia atender. Sua casa era como se fosse um cômodo de todas as outras dali, entrava-se e saía-se sem cerimônias.

- Quantos anos a senhora têm, mãe Mina? - Perguntavam, diante da sua magreza e cabelos alvos como a espuma do mar.

- Eu já nem sei. O tempo parou dentro de mim - Há muito deixara de contar as idades, pois nunca fora anotadas em documentos - Já não faz sentido contar a vida em pedaços. A velhice é inteira, meus filhos.

O dia em que o barco de Mestre Sarnambi desapareceu no mar, enroscado em tempestade, os pescadores assim que desembarcaram exaustos na praia, perceberam a falta do companheiro. O povoado todo ali, dominado pelo medo, à espera de alguma notícia na madrugada.

Mãe Mina ainda era criança. Acordara assustada pelos relâmpagos atravessando as palhas da coberta da casa. Andara pelos quartos, e não vira ninguém, pois o pai, a mãe e os irmãos, estava lá na beira da praia, a espera de alguma resposta para o sumiço do velho pescador. Pela janela via os raios se cruzando em desalinho, levantou as mãos e descobriu que podia controlar as suas direções. Sozinha sorriu daquela brincadeira, e vendo um raio rasgar o meio do céu, mudou-lhe o rumo. O fez atravessar a baía em direção à São Luís, que eram luzes distantes e trêmulas por trás da neblina.

Em seguida, procurou as sandálias, mas não as encontrou. Então rumou descalça pisando as areias frias daquela hora, mais dormindo do que acordada, empurrada pelo vento friorento que soprava. Até se assustaram ao vê-la se aproximando sozinha. A mãe correu em sua direção:

- Minha filha o que tu faz aqui sozinha, e nem se calçou?

Mas ela não respondeu. Fechou os olhos, como se fosse dormir, mas abriu novamente bocejando. Ao chegar onde todos estavam, apontou para o outro lado da ilha.

- Mestre Sarnambi tá pro lado dali. Vocês estão ouvindo o manguezal dizendo?

Os pescadores depois do susto e perguntas sobre como ela sabia, se estava dormindo, ouviram sua vozinha fraca e cheia de sono, revelando:

- Eu vi nos sonhos. Ele não teve força para enfrentar a tempestade, e foi sendo levado até onde está.

Quando chegaram onde havia sido indicado, logo avistaram o mestre Sarnambi, mais morto do que vivo. Havia bebido muita água do mar, e se não fosse ter ficado preso nas raízes do mangue, o mar teria lhe levado embora. O socorreram depressa, e por pouco não morreu. Estranho é que o seu barco jamais foi achado por aquelas redondezas.

Nessa madrugada, do outro lado da ilha, da janela de um sobrado em frente a Fonte do Ribeirão, uma senhora idosa havia acordado pelos barulhos do céu quase a desabar. Foi até a janela, puxou o ferrolho com cuidado e agradeceu que a chuva havia afinado, depois daquela tempestade. De repente, viu um raio solitário surgir, atravessar sobre os telhados e atingir a estátua de Netuno, arrancando-lhe os dois braços e o tridente, de uma só vez. Faltava muito pouco para o dia nascer, e já se podia até ouvir o primeiro passo da claridade no assoalho do mundo.

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