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O MILAGRE

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Argemiro* acabava de abrir mais uma lata de óleo vazia com a talhadeira. Espiou o nascimento das primeiras estrelas e sentindo o cansaço do dia, decidiu que era hora de parar. Sentou-se numa cadeira de madeira e pediu à mulher que trouxesse um pouco de café. Tirou o cigarro enfiando atrás da orelha, o acendeu e a após a primeira tragada pôs-se a resmungar pensamentos, de frente para campo:

- Amanhã há de se melhor do que hoje – Mas voltou atrás, discordando do que havia dito – Só ser for pra mocidade, porque pra quem vai envelhecendo, é uma dor aqui, outra dor ali, na sina de somar idades. Este ofício de levar claridades à casa dos outros, dá uma canseira danada. Mas é assim mesmo, Deus fez a luz no primeiro dia e deixou este Argemiro velho para continuar a sua criação.

Do lado da igreja Matriz, Seu Juca após lavar o rosto e os braços, admirava as cascas de babaçu na última ardência diante do fole, na sua oficina de paredes enegrecidas de tisna. Claridade bonita, nem amarelo e nem vermelho, entardecer de anoitecer.

- Por hoje, tá bom. Mais duro que bater ferro, só essa vida. E a gente ainda enfrenta! – E lembrou-se de repente – Será que o menino acabou de pintar as letras na frente da casa? Ordenara colocar em letras que fosse vistas de longe “Vila Violeta”.

Dom Afonso, o bispo, mal jantara, ansioso por saber que a imagem de Nossa Senhora de Fátima passaria sobre a cidade de Pinheiro naquela noite, num avião vindo de Belém. Em seu rosto transparecia ainda a tristeza de não ter aceitado que a comitiva pousasse em pinheiro, diante dos parcos orçamentos. O máximo que conseguira foi que a aeronave sobrevoasse por alguns instantes a cidade, mesmo estando às escuras.

Na Usina não se via nenhum movimento, pois o motor que gerava luz para a cidade, há dias havia queimado. Ataliba, já andava cansado de explicar às pessoas a situação, já que era o responsável pelo estabelecimento.

- Mas e a gente como é que fica nessa escuridão? – Perguntavam, assim que o avistavam.

- Não se preocupem que o motor vai ser consertado, meu povo. E Argemiro tá aí mesmo para ir nos socorrendo. Na precisão da elétrica luz, é que a chama da lamparina cresce e reluz!

Quando ouviram o motor do avião se aproximando sobre a cidade, naquela noite silenciosa e escura, todos correram para portas e janelas. Mulheres e homens cheios de fé agradeciam em orações, aquele sobrevoo. Até que depois de algum tempo o som do motor foi se distanciando, pois precisava seguir a viagem da peregrinação em direção à São Luís, e todos voltaram para dentro de casa, ainda com os terços nas mãos.

Mas na praça da Matriz ninguém voltou para dentro de casa. As conversas é que cresceram do lado de fora, pois ali diante dos olhos ocorrera um milagre. É que a imagem de Nossa Senhora do Sagrado Coração, sobre o pedestal circundado de lâmpadas apagadas, mal podia ser vista. Mas assim que o avião sobrevoou a cidade, as luzes do pedestal começaram a acender, para depois apagar, e isto se repetiu por três vezes, naquela noite de 10 de setembro de 1953.

Sem explicação para dar, Ataliba desde essa noite, que era parado em todo canto de rua, pois agora queriam saber se havia acontecido alguma coisa na Usina:
- O motor continua quebrado, meu povo. Foi milagre, milagre com M maiúsculo – Espírita que era, praticava a paciência com cada um que encontrava, depois ajeitava o guarda-chuva no braço e tentava seguir o caminho.

Na beira do campo, Argemiro continuava a fazer suas lamparinas e quando lhe contaram, ainda noite anterior, sobre o milagre, não se assustou. Benzeu-se e se encheu de fé, espiando as torres da igreja Matriz, pois sabia que os milagres acontecem. E pensou em suas lamparinas, neste milagre menor, mas também importante, pois o murrão chupa o querosene lá embaixo e preso, e o leva até a parte de cima deixando-o livre. Lá – Como se fosse o primeiro dia da criação – a chama frágil e trêmula, vai parindo as claridades que roçam as paredes, atravessam as portas e sobem até as cumeeiras das casas.
___________
* Argemiro mais conhecido como Bajeba.

 

Dedicado ao confrade Mauricio Alusuras, que sendo profundo conhecedor da vida religiosa da cidade, me inspira em cada conversa que temos. E ao amigo Ciro Santos, dos diálogos permanentes sobre o bairro e sua gente.

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