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A MANGUEIRA DE ZEFERINA

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- Pregado é bom, mas ariar caldeirão não é serviço pra cristão. Mas não há no mundo coisa mais gostosa do que um caldo de bagre jogado sobre um arroz quentinho, e a farinha biriba vir mais por cima, abafando os dois, feito caeira – Falava Velha Zeferina, sozinha no jirau, de onde via todo o quintal e os patos em confusão se alimentando.

Descansou um pouquinho no mocho de madeira. Pegou o bule sobre a mesa, e tirou o croché que cobria as xícaras. Pegou uma sem orelha e ficou a admirando:

- Xícara boa a gente serve é pra visita, né?. Pra mim o café não tem o mesmo gosto se não for nesta aqui – E fechou um pouco os olhos para admirar aqueles raminhos quase sumidos, na xícara que herdara da bisavó . E vendo as mangueiras carregadas, alegrou-se depois do primeiro gole – Eita, que as mangueiras tão com os galhos quase tocando no chão. Deus é sabido mesmo, de onde tirou tanta doçura e belezura pra colocar numa manga, hein?

Ainda pensava, admirando as cores nos galhos, quando escutou um latido de cachorro lá fora. Com passos ligeiros, atravessou o corredor e tomando o resto de café da xícara, ficou observando aquela arrumação ali em frente à sua porta. Não disse uma palavra, queria que fosse vista, antes de falar.

Era Carlos Sabão, português de nascença, que atirava pau na mangueira que ela molhava todos os dias. Desde que brotara, ali na praça do Cemitério, que Velha Zeferina se afeiçoara a fruteira. Até cercado havia feito, para espantar “as cabras, bichos do cão. Um dia ainda vão comer o mundo!” – Dizia ela zangada, vendo as folhas comidas.

Não se sabe se por fingimento ou medo, mas ele não se virou. Disfarçou um pouco, ajeitando as sandálias de couro, e quando sentiu que era a hora, disparou em correria deixando até o cachorro para trás, mas ainda ouviu os xingamentos da velha:

“Vai, malvado! Quando saíste de Portugal tua mãe te disse: Carlos, filho ingrato, vai para o Brasil atirar pedras na mangueira da Zeferina! Vai, filho e apanha as verdes e madruas”*.

Ela voltou e ainda bufando, pôs mais um pouco de café, antes de voltar a arear as panelas.

- Tanto pedaço de terra no mundo, e esse português vem logo pra cá? Vou te dizer que o mar é grande feito um alguidar, mas é menor que minha xícara para quem quer atentar!

Depois do descanso da tarde, Zeferina saiu andando pela cidade. Gostava de ver as lamparinas se acendendo nas casas, em teimosia de claridade, mesmo depois do sol. Mas enquanto não escurecia, foi até o porto ver as canoas e barcos, e as histórias que viajavam. Assim que chegou por lá, a primeira cara que vê – Não é acredito – Reclamou entre muxoxos. Vendo que ele fingia mexendo num remo, parou à sua frente e falou alto, para quem quisesse ouvir:

- “Meu Deus, o que este piolho de gente viajante anda fazer por aqui? Credo!”* – E cuspiu no chão, dando meia volta, e subiu em direção a praça da República.¹
__________
Inspirado na obra Coisas de Antanho – Josias Abreu.
* trechos originais das falas
¹ Atual praça da Matriz.
Velha Zeferina e Carlos Sabão viveram em Pinheiro no século XIX.

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