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O TAMBOR DA CONFUSÃO

April 15, 2020

- O fogo mudou de cor, tá na hora de botar os tambor pra quentar. Pode trazer, criança – Ordenou Venâncio com a garrafa de conhaque que acabara de receber das mãos de Zé Macaco. Perto deles conversavam os outros tocadores: Leonardo, Nivô e Felipe, esperando a hora de esmurrar o couro. Então, deu uma golada e cuspiu uma flor escura na areia que reverberava a claridade da lua cheia.

Era dia de festança grande no povoado Pau do Urubu, por isso o quintal de Mão-de-onça, estava cheio. As bandeirinhas coloridas tremulavam nos fios entrelaçados de uma árvore para outra. Com a parelha formada, o som dos tambores ganhou altura e arrastado pelo vento ecoou por dentro da noite. As coreiras abriram as saias e ensaiavam as primeiras pungadas, quando se ouviu aquela discussão.

No canto da cerca, Zé Leitoa enciumado, por ver a ex-mulher cheia de conversa com Nicô, foi tirar satisfação. Desde a separação que não se conformava em ver aqueles dois naquele chamego sem fim, riso de nunca acabar entrando pelos seus ouvidos. Nicô ao vê-lo arrodeando decidiu que era o dia de acabar com aquela ciumeira. Foi com uma cabeçada de búfala parida que pôs fim a briga. Mesmo Zé Leitoa sendo pesado, voou feito uma jaçanã e foi cair desacordado no lugar de onde havia saído. Acordou pelo dono da casa, lhe mandando que se retirasse.

O tambor então recomeçou. Leonardo nascido em Guimarães sabia que tambor na Baixada não acabava antes do dia raiar, por isso soltou a voz guiando o coro que crescia:
“Cheguei, cheguei, com a minha turma cheguei...” – E ao ouvir aquela gritaria, já no fim da cantiga, até pensou até que fosse alguém desafinado respondendo. Mas avistou outra confusão, diante da mangueira grande, perto do poço.

Rixa antiga. João Micuim nunca esquecera da troca de sua burra pelas três porcas de Mundico Paturi. Bastaram três semanas e dois dias que as bichas começaram a adoecer. Sem querer comida alguma, foram definhando e, antes do primeiro mês as três foram enterradas no fundo do quintal, entre as bananeiras. “Esse desgraçado um dia me paga”. Bastavam se encontrar para recomeçar a mesma confusão que parecia não ter fim.

- O negócio tá difícil hoje, Nivô – Disse mestre Felipe, enquanto guardava a caixa de fósforos no bolso, depois de ter acendido o cigarro. E nessa noite quantas vezes recomeçaram ouviram uma confusão nascendo pelos cantos do quintal. Até uma coreira atracou-se com a outra, coisa de não se entender o começo da confusão. Já na saída, a mais nova se limpando da terra grudada nas coxas, braços e costas, esbravejava: “Macho dos outros né teu!”, e tirando a saia colorida, pôs nos ombros e desapareceu na ladeira da vacaria.

Apoiando-se na bengala foi que mestre Salustiano se aproximou da parelha. De tão velho, ninguém mais se lembrava que ele havia sido tocador de tambor-de-crioula. E não um tocador qualquer, mas dos melhores que a Baixada já havia visto. Deu boa noite, saudou os mestres, e passando a mão nos couros dos três tambores, chamou Venâncio que olhava tristonho para a festança, tantas vezes interrompida.

- Manda trocar a parelha. Os couros dos tambores são de mambira*. Parelha feita com o couro desse bicho é doida para chamar confusão – E voltou à solidão da sua cadeira distante, sob a ingazeira. De lá, ouviu o tambor recomeçar, sem nenhuma confusão. Quando o tambor acabou, já com o sol alto sobre os quintais, os mestres foram onde ele estava. E um por um tomaram bênção, pedindo-lhe que lhe contasse sua história. Enquanto isso, descansaram das cantorias e viram a marca que unia todos eles: os calos nas mãos.

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*tamanduá-mirim.

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