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OS POTES DE VICENTINA AGUACEIRO

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Ninguém sabe bem quando ela começou a guardar a chuva. Os mais velhos diziam que fora logo depois de uma febre alta, que lhe embrulhou os sentidos e desmantelou o juízo, durando uma semana. Nem um dia a mais, nem um dia a menos, como se fosse doença causada pelas horas.

O certo mesmo é, que um dia Vicentina Aguaceiro, nome que lhe puseram diante daquela estranheza, acordou sem febre alguma e pôs-se a aparar com as mãos a chuva que escorria pelo coberta de palha. Espiou em silêncio todo o quintal, procurando plantas e bichos, e falou coisas sussurradas, antes de voltar a entrar em casa. Derramou com cuidado a água recolhida num pote, há muito esquecido num canto da despensa, cheio de teias enegrecidas de tisna, lhe roçando o corpo.

Quando atingiu a metade desse primeiro pote, ela pôs-se a encomendar mais e mais outros, para Armindo Mãos de Deus, único artesão do povoado. Homem trabalhador, jamais sendo visto em festas ou descansos, sempre ali na beira do rio com as mãos dando forma a argila, fazendo tudo de barro. Quando lhe diziam que para ser Deus, só faltava fazer um homem, respondia calmamente:

- Me falta o sopro de vida, meu fôlego é curto, tive asma quando criança.

Lá estava ele terminando mais uma obra, quando Vicentina
se aproximou e com palavras curtas encomendando os potes.

- Mas Vicentina, para que tanto pote, minha velha?

- Mão de Deus, arguma vez já te prercurei para que tanta panela, fugão de barro ou pote? Cada vivente sabe inxatamente do que carece. Se vai fazer me diz logo, purque vim pur nicissidade, e não pra encumpridá cunversa.

- Posso sim – Respondeu meio sem jeito, lembrando-se da impaciência da velha - E parece que a senhora tá boa mesmo, hein?

- Pur acaso tu tá veno visage? Senão, é isso mermo que disse: tô curada! Posso levá logo este pote, enquanto os outro fico pronto? – Ao ver que ele acenava positivamente, ergueu um que já havia escolhido e pôs na cabeça. Saiu sem de despedir, como se aquele pote estivesse cheio de água. No caminho vinha torta, equilibrando os ventos, força dos costumes. De tempo em tempo parava para descansar, xingava a fraqueza das pernas e continuava.

Em pouco tempo, o quintal foi ficando cheio daqueles potes. Bastava chegar ao meio, que ela tapava as bocas com folhas de bananeiras e as amarava com embiras. Mas antes colocava duas jias, ali dentro.

- Vó, pra que a senhora quer tanta água? – Perguntou a neta, a única que não lhe tirava a paciência. Nasceu fora de mês, lutou entre a vida e a morte, pingo de gente, até que se salvou. A velha a levou junto para casa, pois perto dela a morte tinha mais medo de encostar.

 

Apesar da avó ter respondido, a menina não compreendeu nada, só depois é quando foi entender. Assim que os rios começaram a secar, a mata perder o verde, e pelas estradas milhares de peixes sufocando a procura de alguma gota de água. E foram tantas ladainhas, tantas promessas, diante dos poços iam baixando as suas as águas, que pensaram em desistir.

Vicentina parecia indiferente aquilo tudo, pois não se desesperou. Na madrugada em que ouviu a cantoria das jias, sabia que eram famílias inteiras que nasciam rasgando as folhas das bananeiras envelhecidas nas bocas dos potes. E eram tantas que nenhum galho de árvore se podia ver, apertadas umas por cima da outras em orquestra de muitos tons. Sorriu, embrulhada na sua rede. Depois calçou o chamató, acendeu a lamparina e esperou a madrugada mudar de cor.

No céu nenhuma claridade, apenas nuvens escuras, feito restos da noite. Então, uma chuva se armou e seguindo a cantoria das jias desabou sobre o lugar. Até hoje, cacos de potes são encontrados em lugares distantes, mostrando o caminho feito pelo aguaceiro, que derrubou as cercas e confundiu todos os quintais como se fossem um só.

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