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UM GALO PARA DUAS CABEÇAS

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A ÚLTIMA HORA

March 26, 2020

Fora ali, entre as dobras das areias que Maria Estrela nasceu. Mas se o seu pai há muito havia morrido, como é que a sua mãe Anastácia engravidara? Mulher de quase não sair de casa, silenciara a boca e os desejos logo depois da última reza de luto. Sua única alegria era esperar que o povoado dormisse e rumava para as dunas. Por lá se perdia nas nas horas espiando as estrelas, logo depois de por a filha para dormir.

 

Susto grande foi quando Antônio Sururu, voltando de arrastar camarão, espiou aquele vulto distante subindo a morraria. Benzeu-se e só seguiu caminho porque era homem criado no mar. Ficou observando, observando, escondido nas sombras dos barcos até que reconheceu Anastácia. Mas às vezes pareciam duas pessoas...

 

- Diacho de estranheza! Essa perdeu o juízo desde que perdeu o marido. Tanta formosura e morenice e não quer homem. É a terra quem vai se saciar a fome! – Admitiu tristonho e com uma ponta de inveja, porque nem um sorriso a viúva dava para os pescadores dali.

 

Quando apareceu grávida, a barriga causando sombra no chão, emudeceu todo o povoado, mas ela não se importou. Com palavras firmes mandou chamar apenas a benzedeira do lugar, que ao limpar os pés no batente da porta, foi logo dizendo:

 

- Bendito o vivente que traz no teu ventre, mulher - Abraçaram-se e pondo Anastácia numa cadeira de madeira de frente para o quintal, continuou com seus galhinhos de mato, molhados em água do mar – Que venha com saúde e com a bondade dos anjos. Que renegue tudo que é mau, e seja como a luz da lamparina, inimiga da escuridão. Que traga no corpo o sal destas praias, que o sol lhe mude a cor da pele, e que o no nariz respire as areias da qual somos feitos e para onde um dia voltaremos. Amém!

 

Após a benção ficaram as duas esperando a noite cair, enquanto a conversa remexia as explicações. Mas vendo que a velha, devido à falta dos dentes, parecia mais preocupada em conseguir tirar um pedaço de bolo de tapioca, apressou-se em perguntar:

 

- E Dona Olegária não quer saber quem é o pai?

 

Mas a velha parecia não ter ouvido. Distraída molhava o bolo no café, até que enfim conseguiu arrancar um pedaço pequeno, sentindo a erva-doce grudada no canto da boca.

- A senhora não quer saber quem é o pai?


Só então, a velha sorriu, como se tivesse ouvido desde a primeira vez:


- Não, minha filha. São as mães que importam neste mundo. Os homens são como besouros, qualquer claridade os atraem. São bichos da natureza. As suas cabeças guardam mais vento que o pano dos barcos. Deus é mulher, acredite! Se fosse homem já tinha abandonado a criação e as criaturas. Mas não diz isso para ninguém, na minha idade tudo pode parecer caduquice.

 

Anastácia até se espantou e deu um sorriso sem jeito. A velha Olegária depois de pronunciar suas verdades, também ficou encabulada pelo jeito que havia dito, e pediu que lhe contasse quem fora o homem, fingindo interesse.

 

- Foi o cego rabequeiro, Ovídio – E esperou a reação de Olegária que não veio, pois ela revirava mais um gole de café – Uma noite ouvi o som da sua rabeca lá no quintal e fui ver o que era. Sem dizer nada, ele pegou as minhas mãos e fomos indo até a morraria. Me ensinou a andar de olhos fechados na escuridão, como se fôssemos um só, a dizer com as mãos e a renascer com os sons. Assim tem sido em muitas noites. Lá em cima, eu lhe conto como é o céu. Estrela por estrela, e só voltamos quando uma cadente se lança em nossa direção, avisando que o dia já tropeça no batente da última hora da madrugada.

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