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O RELÓGIO

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Por isso, que aquela senhora de vestido cheio de flores , franziu a testa, lhe perguntando se estava tudo bem. Depois voltou a folhear a revista que tinha nas mãos, na mesma sala de espera.

 

Ele nunca havia vindo à ilha. Conhecia o Boqueirão por ouvir falar, mas nunca de atravessar. Por isso, achou bonito para danar quando o barco foi se aproximando e viu aquele casarão branco se destacando na paisagem. Ficou pensando o que seria aquilo, mas uma senhora explicando para a netinha, acabou por lhe tirar a dúvida também.

- É o Palácio dos Leões, minha filha, a sede do governo.

Nascera num povoado na estrada entre o Cujupe a entrada de Bequimão. E só veio porque lhe trouxeram, por uns esquecimentos bobos que vinham lhe acometendo.

- Bobos? – Disse a mulher arrumando sua valise – É porque tu é assim, tudo para ti é bobagem. Se tu tá esquecendo tudo. Essa semana mesmo tu foi dormir, dizendo que já tinha jantado. E antes de ontem deixou o pote sem água, coisa de nunca ter visto. Rum hum, viver é jeito, morrer é descuido.
- Mas mulher isso não é doença, é o quengo pedindo descanso. Imagina o que tá aqui dentro – Disse apontando com o dedo para cabeça – É o dia inteiro aí funcionando. E quem vai cuidar da roça e botar o comer dos bichos?
- Mais teimoso do que tu, só tua burra! E se tu morrer ou piorar quem vai cuidar? Amanhã mesmo tu vai para ilha. Tua filha vai te esperar lá na rampa, e vai te levar de tarde ao médico. Assim que sair do serviço volta para te buscar.

Agora lá estava ele. Sentando na sala de espera, olhando para o relógio na parede, viu marcar 17:00. Lembrou-se da esposa, e pela primeira vez sem ela, sentiu-se nervoso. Coração acelerado e nada de lhe chamarem. Pensou, com as mãos frias:

- Vou morrer certinho às 17:30! Mas morrer assim? Antes de entrar na sala do médico? Que morte, hein – E aquela suadeira danada pelo pescoço, e escorrendo pelas pernas da calça.
Os ponteiros avançavam 17:15. E cada minuto sentia o fôlego mais curto. 17:16...17:17...17:18...

Tentou se distrair lembrando-se das histórias que havia vivido. E acabou por se perguntar:
- Se eu tô ficando esquecido, como é que lembro das histórias antigas? – Deduziu, não querendo olhar para o relógio ali em frente. Virou a cabeça, fechou os olhos, mas não resistiu. Os ponteiros corriam...17:29.

A suadeira ensopava a camisa, as pernas tremiam, e as mãos já não aguentavam paradas. Sozinho estava ali, porque a mulher havia se levantado para ir ao banheiro. Quando voltou, não percebeu o nervosismo dele.

- Que morte mais sem jeito. Só mais um minuto de vida... – Então, pensou em rezar, mas desistiu – Eu não vou estragar só esse minuto com reza, vou é lembrar da Maria. Que me amou a vida inteira. Eita, mulher com M maiúsculo. E pôs-se a lembrar de como era bonita quando nova. A morenice da Baixada, e aquele ar faceiro. Não demorou foi na casa dos pais lhe pedir em casamento.

Estava de olhos fechados, suspirando a lua de mel, quando esquecido dentro da história, os abriu. Apavorou-se ao ver a hora exata no relógio da sala de espera:

- Aiii, eita diacho! Maria eu não vou voltar, mas te levo comigo. Teu amor é Boqueirão, mexendo aqui dentro! – Disse atropelando as palavras. Mas vendo que não morria, sorriu sem jeito para aquela mulher, duas cadeiras depois da sua. Por isso, ela de vestido cheio de flores, franziu a testa, lhe perguntando se estava tudo bem. Depois voltou a folhear a revista que tinha nas mãos, na mesma sala de espera.

17:31...

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