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Vendo que as nuvens mudavam de cor e caminhavam mais pesadamente no céu, levantou-se com dificuldade. Espiou mais uma vez para o alto em direção as torres da igreja da Sé, e só então, seguiu pela calçada da Avenida Pedro II, naquele fim de tarde. Quando já ia atravessar em direção à Praça Benedito Leite, lembrou-se do guarda-chuva deixado para trás, esquecido no banco de madeira.

 

- Diacho, que meu juízo foi embora antes de mim. Mas também, nem eu sei o que ainda faço aqui. 97 anos, sob sol e chuva. Meus amigos já foram tudo embora. Tudo covarde, com medo de enfrentar a velhice. E sei que tudo ficam rindo porque ninguém me reconhece, mas eu também não os reconheço. Sei me vingar dos que me veem com a cara torta, como se eu fosse visagem. Eu lá tenho jeito de cocheiro da carruagem de Ana Jansen? Posso não ter juízo, mas a cabeça continua aqui por sobre o pescoço – Resmungou voltando o caminho.

Passara boa parte do tempo ali, revendo alguns sobrados e a fonte onde Iara se banhava para matar o calor daquele dia. Já com o guarda-chuva enfiado no braço, atravessou a rua, e no meio da praça se pôs a admirar os sobradões e moradas. Riu baixinho, como que se confidenciando um segredo, num sussurro demorado.

- Rua da Palma... – E retirando um lenço do bolso, pôs-se a limpar a testa suada. Em seguida o sacudiu diante da viração da tarde, e foi dobrado parte por parte sobre as marcas amareladas, antes de guarda-lo novamente. Ajeitou os óculos na cara, pensando em qual caminho tomar. Se em direção a rua da Palma mesmo ou em direção à Fonte do Ribeirão – Ainda não tenho 100 anos. Posso ir na rua Palma e depois para a Fonte.

Ao entrar na rua, por mais que insistisse em não olhar, lá dentro, remexendo feito o Boqueirão, o seu coração o fez virar para aquele sobrado descascado. Tão diferente do que fora um dia. A memória ficou em teimosia ao tentar lembrar a cor original e até as mangueiras grandes, que espiavam por sobre o muro, havia desaparecido. O certo é que ali morava Alcina. Se era bonita? Da vista nunca cansar.

Nesse tempo, além de trabalhar ali no Cais da Praia Grande, descarregando tudo que é mercadoria que chegava nos barcos para a Casa das Tulhas, era conhecido também em toda a cidade por ser miolo de boi. Herança do pai que viera da Baixada, e dizia que pobre só tem duas alegrias: Amor de uma mulher com os filhos, e dançar bumba-meu-boi.

Retardou os passos, abrindo o guarda-chuva. Um homem nu, da cintura para cima, dobrou o canto da rua com uma lata d’água nos ombros, e ao vê-lo tão precavido, riu e não se contentou:

- Ainda nem choveu, e vovô já está assim? Qualquer chuvisco mete medo em pinto e velho, hein?

Não respondeu àquela provocação. Preferiu voltar às lembranças de Alcina. Preta como ele, e com um sorriso de nunca fartar. Desde que a vira pela primeira vez ali na porta do sobrado comprando cheiro verde, sentiu-se invadido por aqueles olhos. Então, qualquer horinha vaga se desembestava para a rua da Palma. Até o dia em que ganhou um sorriso, e depois mais um, e com o tempo já não sabia, e nem podia contá-los.

Mas foi numa noite de São João, por dentro da armação do boi, que a avistou na roda. E não é que ela o esperou? Bastou a festança acabar, e pela primeira vez sentiram seus hálitos, seus cheiros, seus calores, e amanheceram nus, como o dia lá fora.

- Ah, Alcina, tu também foi embora sem sequer se despedir – E virou na rua Humberto de Campos, até encontrar a rua do Egito, para em seguida descer a ladeira da rua dos Afogados. Ao avistar a Fonte do Ribeirão, o céu descosturou-se e despencou aguaceiro de dar medo em Netuno, sem o tridente e sem os braços. Só então, protegido pelo guarda-chuva aberto, respondeu ao homem nu da cintura para cima, carregando a lata d’água, deixado para trás:

- Tu é tão besta, que nunca viu que os vivos compram caixão ainda em vida? E mãe e pai não escolhem o nome da gente é antes do nascimento? Se vai chover ou não é decisão do céu, aqui embaixo resolvo eu! – Sendo ouvido apenas o final do que dizia por aquela gente, que abria caminho dentro do comércio, onde se resguardavam. Agradeceu, e sacudindo o guarda-chuva, se pôs a espiar também os ventos que espremiam as nuvens sobre a ilha, com relâmpagos feios e trovões em agonia de zabumbas.

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