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A LADAINHA

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Ali, no lugar chamado Faveira, por onde corre o rio Pericumã e se estendem os campos, é que alguém ordenou que se acendessem as lamparinas da casa. “Seis horas”, e se não botam as claridades como é que Nossa Senhora acerta as casas?

 

Antes já haviam espalhados os mochos e bancos de madeira, e posto a imagem de São Sebastião sobre a mesinha coberta com um pano branco. Duas velas o iluminavam, sobre os pires de vidro, e um copo com água alimentava as flores colhidas no quintal.

A dona da casa, cismada com algum pedaço mal varrido, voltou a passar a vassoura num canto da sala, e só então, foi deixa-la na cozinha ao lado fogão, onde o cachorro misturava-se às cinzas, dormindo no chão de terra batida.

Ordenou que os filhos e netos cuidassem em se banhar e voltou para a sala. Jogou-se pesadamente sobre o banco comprido, e pôs-se a observar a antiguidade do pai, à sua frente. Cego, há muito tempo, segurava o bastão, mastigando os silêncios. Sentindo a sua presença, pôs-se a falar:

- Minha filha, se há um santo no céu, maior do que todos os outros, é São Sebastião. Nunca pedi nada pra ele, que não me atendesse. Por isso que essa ladainha é promessa de todo ano.
- E ainda mataram o pobre todo flechado! – Condoeu-se a filha se abanando com a mão, ainda sentindo o calor daquele demorado varrimento.
- Nada, minha filha. São Sebastião primeiro perseguiu os cristãos, mas depois que os defendeu, foi condenado à morte por flechadas, mas não morreu. Se recuperou e tu acredita que voltou a enfrentar o imperador? Aí é que foi capturado e chicoteado até a morte.
- Coitado. Me parte o coração de ver ele assim – Entristeceu-se a filha, se levantando para receber os primeiros que chegavam para a reza. Assim que voltou de se banhar, começaram a ladainha.

João Crisóstomo puxava a reza e o povo devoto respondia. Mas uma voz conversando lhe atrapalhava, então, pediu:

- Silêncio! Muito silêncio – Mas de nada adiantou, pois Mundica Freitas era quem tanto conversava. A doida da cidade! Chegara de mansinho e se postara ali na janela, espiando para dentro. E lá permanecera como um santa emoldurada, cheia de assunto para contar a quem estivesse ao seu lado.
Ele, tentando mudar de estratégia, entoou um cântico:

“Virgem do Rosário
Divina Maria,
O terço rezamos
Com grande alegria”

Sentindo o silêncio misturado aos ventos frios do começo da noite, que vinham lá do Mato Azul, ele alegrou-se. Passou a mão sobre a cabeça sem cabelos, e quando ia abrir os olhos, satisfeito, Mundica emendou um verso:

“Virgem do Rosário,
Eu vou me calar
Careca que disse,
Para eu não falar!”

Apesar de todas as flechas, São Sebastião pareceu dar um sorriso diante da luz trêmula das velas que iluminando, iam diminuindo e escorrendo, feito um rio branco que inundava os pires.

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João Crisóstomo e Mundica Freitas viveram em Pinheiro há mais de 100 anos.

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