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OS TAMBORES

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Foi logo depois de uma chuva grande, que pariu clarões e trovões no céu, que Ernestino abrindo a janela por onde entrava o silêncio das claridades, pôs-se a reclamar da noite mal dormida:

 

- Diabo de tanto tambor! A gente passa o dia no mar, comendo vento e dançando com as ondas, e quando chega em casa não se poder sequer fechar os olhos? O jeito é suspender a pescaria, enquanto a festança não acabar. Quero ver se o barco de tanto ficar parado, vão virar banquete dos turus. Arriscado mesmo é até o leme se esquecer dos caminhos.

- Mas marido que desavença é essa? Por acaso tu esqueceu que estas ilhas é a casa todas as encantarias do mundo? Tu nasceu aqui, perdeu o umbigo aqui, cresceu aqui, vai envelhecer e morrer aqui, e continua cheio de estranhamento? Aqui até as crianças têm gosto de sal, e a primeira coisa que aprendem, antes mesmo de falar, é se acostumar a dormir ouvindo a pajelança de Dom Sebastião por debaixo das dunas – Relembrou a mulher, tentando lhe acalmar. Limpou os olhos e bocejou longamente, naquelas horas de frieza.

- E eu lá sou como os outros, mulher? O que sei é que minha cabeça anda zonza. Teu pai era pescador e tu bem sabe que o mar dá peixe, mas cobra sono e fome. Banzeiro revira até a alma do avesso. É na rede que ela volta a se arrumar, feito vela de barco. Agora se Dom Sebastião vive só em festa, dia e noite, noite e dia, é diferente de mim, que preciso ir buscar comida, pois peixe não nasce no chão. Ah, se sururu desse em árvore, e caranguejo no poço estava tudo resolvido. Mas não, foram achar de se esconder nas profundezas, nas raízes e até por dentro da lama.

A mulher o chamou, vendo que continuava desassossegado. Retirou o bule do fogo, pôs a macaxeira cozida no prato, e derramou lentamente o café preto na xícara branca. Pela janela da cozinha viu o céu ainda respingando.
- Marido, marido... Até das festas de Dom Sebastião tu reclama? Depois, depois. Tu sabe que o rei não gosta de reclamação.
- Mas gosta de zoada! Isso eu sei que ele gosta.
- Vou até encostar essa porta – Disse ela se levantando em direção à porta da cozinha – Se ele ouve as besteiras que tu esta falando, é certeza de botar aquele bando de cachorro em riba de ti ou encrespar o mar ainda mesmo de tu sair das ilhas.
- Pois que mande, para cachorro eu tenho remédio. E se tivesse medo de mar, não era pescador. Mulher Dom Sebastião tem seu poder, mas não é dono do mundo não.

A mulher desistiu daquela conversa. Preferiu deixa-lo de mão, pois também sabia que ele também tinha razão. Tanto trabalho no mar e não podia descansar. O corpo que vive no mar, vem à terra só para descansar, e para não esquecer do nome das coisas e das pessoas.

A chuva começou a cair novamente, ainda quando tomavam café, e se estendeu por todo o dia e a noite. Só no meio da madrugada, quando as estrelas já cochilavam, que cessou por completo. O que despertou a mulher de um sonho mal começado.

- Marido, repara como os tambores silenciaram. Graças a Deus e a São Benedito que a festança acabou! – E apurou os ouvidos mais uma vez. Mas voltou à certeza que por debaixo das dunas, nenhum tambor era ouvido – Levanta que o mar te espera?

Ele demorou a abrir os olhos. Depois cuspiu p resto de sono, calçou as sandálias, e só então se levantou. Foi até a despensa, pegou o pandeirão, e limpou com as mãos as teias de aranha. Em silêncio, passou pela mulher e se dirigiu até o meio do quintal.

- O que tu vai fazer com isso, uma hora dessas?

E sem responder, pôs-se a tocar seu pandeirão, que naquele instante mais parecia uma lua cheia suspensa no quintal. Esqueceu do mundo, se imaginou no meio do batalhão, revirou um gole de cachaça, sentiu o suor esquentando o corpo, e só depois de ouvir a apito do amo, desabafou:
- Quero ver se é bom não deixar os outros dormir. Dom Sebastião manda no reino dele, aqui mando eu!

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