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Desde menino, seu sonho era ser jogador de futebol. Mesmo num lugar distante daquele, entre Guimarães e Mirinzal, sem energia, televisão ou geladeira, bastava o pai ligar o rádio que ele esquecia dos outros meninos lhe chamando para brincar. Aquela voz acelerada narrando, lhe descompassava o coração, minguava a respiração, e sentia as pernas tremer quando o time adversário chutava um balaço “tirando tinta da trave”.

Imaginava pelos campos Pelé, Garrincha, Tostão e aquele nome que lhe fazia lembrar da criação no quintal: Zagalo! Primeiro pensou que fosse Zé Galo. Só depois de ter pronunciado, é que o pai lhe corrigiu, coçando a canela e aumentando um pouco mais o volume:

 
- Zagalo, meu filho. Zagalo! Zé Galo era teu padrinho. Nunca vi gostar de briga de galo assim. Para onde ia era com aquele bicho debaixo de braço, apostando tudo que podia.
- Meu padrinho? Não lembro. Papai quando eu crescer vou ser jogador de futebol.
- Mas com essas pernas tortas como tu vai jogar?
- E garrincha também não tem? - Argumentou o filho, fazendo-lhe comer as palavras e vomitar os silêncios - E gosto mesmo é de ser goleiro, pai. É a bola que vem atrás de mim, e não eu que fico correndo atrás dela.

O pai até se assustava vendo aquele menino, com tão pouca idade, falando coisas assim. Por isso, pigarreou e fingiu aumentar um pouquinho mais o volume.

Foi num domingo de manhã, no festejo de São Sebastião, logo depois da missa, que ele vestiu a sua camisa de goleiro com buracos debaixo dos braços, tocou na grama na entrada do time no campo e se benzeu três vezes. 17 anos completos!

Mal o jogo começou, sentiu a força do time adversário. O atacante recebendo um passe lateral, cortou o zagueiro, e soltou aquele chute. Até que ele viu a bola saindo, mas só soube que ela chegou, depois de sentir aquela água fria na cara, lhe despertando.

- Acorda, Manequinho! Acorda, Manequinho! – Reconheceu o sotaque do padre italiano que havia ido naquela manhã celebrar a missa. E como era metido a conhecedor de futebol, decidiu passar o resto do dia no festejo. Olhos azuis, bochechas rosadas, e nome confuso.

- Onde eu estou, Seu padre? – Quis saber atordoado, sentindo a testa arder, naquele círculo perfeito onde a bola havia chegado e deixado um desenho avermelhado.
- No jogo, meu filho.
- E por que essas estrelas estão caindo?
“Estrelas caindo”? – Estranhou o santo padre, em cima das onze horas com o sol a pino.
- Traz ele para sombra – Ordenou.
Já debaixo da mangueira, Manequinho pôs-se a rir, causando estranheza nos presentes, enquanto o jogo reiniciava. O padre perguntou o porquê daquela alegria, e ele voltando a rir, revelou:

- O senhor não vê, Seu padre. A mangueira tá com a raiz pra cima e as folhas aqui embaixo. E repare direitinho, como as mangas estão de cabeça pra baixo.

Calmamente o padre lhe benzeu e o levaram para casa. Foi recebido pela mãe, que lhe deu um banho e o pôs ali na rede.
- Mãe, bote as galinhas pra fora, e leve esse porco também. Que do jeito que tá fuçando, ainda vai derrubar as paredes do quarto – Pediu bocejando, enquanto desenrolava o lençol fino sobre o corpo magro – Vou dormir.

A mãe se lembrou do que o padre havia lhe contado do jogo, e fingiu tocar as galinhas e o porco para fora do quarto em direção ao quintal.

Nunca mais Manequinho falou coisa com coisa. Quando chega o fim da tarde, pega o rádio sem pilhas e vai se postar lá pertinho da rede do pai. Em seguida se ajeita e começa a narrar, rememorando todos os jogos que ouviu. Os dois vibram a cada gol, e nesses jogos, o Brasil nunca perde, pois Manequinho é quem decide o placar quase sempre no último minuto do segundo tempo.

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