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OUÇA-ME, MEU AMOR!

September 4, 2019

Até o galo se confundiu ouvindo aquela conversa ali no quarto, pensando ser o fim de madrugada, se pôs a cantar, acordando os quintais da vizinhança. Todos os outros galos o seguiram, tecendo em cantorias o dia que ainda estava longe de nascer.
- Acorda, marido! Diacho de sono é esse. Quem muito dorme não vê a vida passar. 
Agripino se virou de lado, dentro de um sonho, por isso continuou calado. 
- Vumbora, homem. Até os galos já acordaram e tu te negado a me ouvir? Hoje acordei, com a memória remexendo. Tu lembra de quando me roubou?
- Serena, deixa eu dormir. De manhã tu me conta, mas agora me deixa dormir – Implorou o marido, na confusão de estar acordado sem estar, ou seria um sonho dentro do outro?
- Então, tá. Continua teu sono, mas eu vou falando, porque saudade é pra ser contada. Depois que passa é coisa esquecida, sem serventia. Tu devia era acordar pra lembrar da noite que esperou os meus pais e os meus irmãos dormirem, e foi me buscar no fundo do quintal. Naquela escuridão tu acredita que não vi nem tu, nem o cavalo? Fui me guiado por teu cheiro, pisando devagar naquelas sombras, com medo até da zoada que as folhas secas faziam quando pisava. Ainda pensei se tava fazendo o certo, deixar tudo para trás, mas amor é assim, né? Revira a cabeça da gente, sacode o juízo, e aperta o coração. É quase como morrer, mas é na verdade, um outro viver. Quando lembrava do teu bigode, dos teus olhos dentro dos meus, até o vestido se arrepiava. Hoje, até pra acordar pra me ouvir não pode. Tudo muda, até o amor... Foi logo depois disso que a velha Inocência desapareceu. Tu lembra? – Ao ver que não obteve resposta, insistiu – Tá me ouvindo Agripino?
- Tô – Respondeu secamente, acordando nesse instante, mas logo voltando a dormir. A voz da mulher era algo distante, coisa de não se prestar atenção. Só podia ser um sonho.
- Tá mesmo? Então tá. Pois é como estava falando, a velha Inocência, coitada, não fazia mal pra ninguém. Ainda me lembro dela metida naqueles vestidos, finos que pareciam feito de poeira. Toda tarde se sentava na porta da casa, esperando a noite chegar. Dizia que é ingratidão estar trabalhando nessa hora, pois é a mais bonita do dia, quando a tarde escapole pra dentro da noite. Nunca entendi bem, pois era cega, o que ela podia ver? Talvez só sentisse a reviração dos ventos mudando de direção. Cabelos brancos, pele escura, voz calma, de contar histórias sem pressa, feito rio descendo. Aí de repente, aquela doideira na cabeça da pobre criatura, dizendo que como não morria, ia embora. E os mais velhos, achando que ela estivesse caducado, ficavam perguntando: Mas ir embora para onde, Inocência? Ela dizia que quando a morte não vem, é preciso que a gente vá ao seu encontro. Sabe-se lá, o que ela queria dizer com isso, né Agripino?
- É mulher, sabe-se lá – Pensou em responder, mas o sono era mais forte, e só disse “Hein, hein”, tão baixo que ela duvidou ter escutado.

- Velha Inocência, então desapareceu, sem que ninguém explicasse como. No chão, só as marcas dos pés, e do cajado à frente, até desaparecerem na beira da mata grande saindo do povoado. Procuraram por horas, dias, semanas, e anos, até que ninguém mais foi atrás dela, e se acostumaram com seu sumiço. E do velho Asdrônio, que jurou que um aparelho tinha levado seu burro do meio do campo? E de Osineu que fabricava dentaduras? Otacília que morreu sem ter morrido? E foi desfiando histórias, até que Agripino acordou, e ouvindo o fim da última história, disse sem maldade:
- Eita, mulher, tua língua não se cansa. Tenho certeza que tu foi vacinada com agulha de vitrola!
- O que? Diz isso para a tua mãe que não se cala. E se tu quer mulher muda e surda, agora vai ter! – E enquanto durou a zanga, Serena emudeceu. Jurou esquecer as palavras, e nem nas noites de amor, quando Agripino implorava que ela lhe dissesse as desmesuras daquele amor, ela voltou atrás. Até os suspiros foram negados, mesmo diante de choros suplicantes.

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