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A LÂMINA DO TEMPO

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A tarde se danou para esfriar, logo depois do almoço. O vento brincando de “já-ô” por entre as árvores e fazendo redemoinhos, sem muita altura, com as areias do quintal. De vez enquanto uma folha seca se perdia no azulamento do céu. 

 
- Um friozinho desses é feitiço de rede – E se esqueceu do mundo, caminhando para dentro do sono. Sabe-se lá quanto tempo dormiu, acordou pela neta lhe sacudindo o punho da rede com aquele embrulho comprido nas mãos. “Até que enfim a faca havia chegado” – Pensou, desembrulhando-a. 

Retirou o laço de embira que a amarrava, e viu a lâmina de aço brilhando.

- Para que é isso, vó? – Perguntou a pequena curiosa, com os olhos crescidos.
- É para a gente saber o futuro. Depois de amanhã é dia de São João, então a gente enfia a faca e quando puxar vai tá tudo lá. Os desenhos gravados na lâmina da faca, dizendo o que vai acontecer.

A neta já havia até esquecido, quando naquele fim de tarde, a avó lhe chamou.

- Vamos que a noite já vai engolir o mundo – E para lá rumaram em passos lentos – Deixa que eu enfio. Enquanto isso, vai buscar uma cadeira e lamparina que o tempo está escurecendo ligeiro demais. Quando voltou a neta viu a faca lá tesa, enterrada na bananeira.

- A gente espera um pouco e depois tu vai buscar. Vendo essa faca assim, enfiada na bananeira me lembrei de um dia triste neste povoado, quando Nicanor matou Ibrahim. Dois homens bons, só viviam para o trabalho. De dia na roça, e de noite nas pescarias. Amigos de quase nascimento. Mas bastou se apaixonarem pela mesma mulher. Uma viúva que chegou aqui, causando inveja nas outras. Estava bebendo na quitanda de Zé Marreco, quando um puxou faca para o outro. Nesse tempo, ninguém se metia numa briga entre dois machos. Quando Ibrahim avançou, mediu as distâncias erradas, Nicanor se valendo da idade, atravessou os espaços e lhe desferiu o golpe. O homem ainda deu uns passos, mas desistiu dos caminhos, e tombou. Mas vamos deixar a tristeza para lá. Vai buscar a faca.

A neta lhe entegou, mas ela franziu a testa tentando ver alguma coisa. Depois revirou a lâmina, e depois de um tempo naquela reviravolta, admitiu zangada:
- Diabo que nesta idade nada presta. Até os olhos mendigam. Hum, pega e me diz o que tu está vendo. Põe a lamparina mais perto.

A neta pôs-se a olhar, mas não viu nada. Afastou e aproximou a lamparina, com dúvida se aquilo era verdade. Mas depois os desenhos foram aparecendo, feito com a baba esbranquiçada da bananeira.

- Tu quer é me matar de curiosidade, minha filha? Vamos diz o que tu tá vendo! – Apressou-se a avó, quase a lhe tomar a faca e a lamparina. 

- Eita, vó. Tô vendo uma cobra comendo uma estrela. Aqui no canto um jabuti com casco de arco-íris. Em cima, tem duas árvores, mas no lugar das folhas têm barcos. Vô, tem um passarinho cheio de cores. Como a lua tá fina, ele está sentado nela... – E foi falando de cada desenho, afogada em entusiasmo. Até que perguntou: Isto é o futuro? Até que percebeu que avó havia dormido, então lhe chamou e rumaram para casa

Desde esse dia, após o jantar, vão para o fundo do quintal, avó e neta, feito crianças em alegrias de roda, e se põem a contar histórias uma para a outra. A faca nunca repete os desenhos porque a neta vê o futuro, e avó, aproximando a lamparina cada vez mais, desandou a ver o passado.

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