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PROMESSA DE SÃO JOÃO

June 25, 2019

Acordara antes do dia, por isso bocejava demoradamente, parada ali na porta da cozinha. Observava a dança das bandeirinhas coloridas sobre o quintal varrido. O festejo ia começar! – Pensou alegre, voltando a entrar. Havia esquecido por alguns instantes do café no fogareiro, mas o cheiro invadindo a casa lhe apressou os passos em direção ao saco de passar, enfiado nas palhas acima do jirau.

 

- Já tô cum fome, Matilde – Reclamou Apolinário, sentado na cadeira de macarrão – Nunca que pensei que a velhice fosse assim. Sono vai imbora, e fome chega. 
- Calma, meu velho. Aqui fome não mata home. Pra quem tem fé, nunca farta o café. Tu tá te alembrando que hoje cumeça o festejo de São João?
- E é? E eu lá me alembro de arguma coisa? 
- Credo, tu não te alembra nem de quando era patrão do boi?
- Ah, disso eu me alembro. Mas num sei mais fazer toada, elas desaparecero, minha cabeça secou. Quando era mais novo, fazia a hora que quiria.

 

Matilde se aproximou do marido, e deixando a xícara de café preto lhe entregou um pedaço de bolo de tapioca. Ao vê-lo comer apressado, advertiu:

- Calma Apolinário, o bolo num vai correr. Diacho de fome é essa! Nem quando tu trabalhava na roça era assim esgulepe - Em seguida voltou até a cozinha.

 

Retornou para sala com um prato e uma cuia d’água, se postando em frente ao altar. Admirou o quadro desbotado de São João, se benzeu e depois de pingar a vela, fixou-a no prato. Em seguida, com cuidado foi derramando a água, até enchê-lo quase que completamente.

 

- Eu ainda nem murri, e tu já tá apreperando as homenage pra mim? – Assustou-se, o marido com um pedaço de bolo grande vazando pelos cantos da boca.
- Mas que ideia. Tu tá ficando um velho cheio de invencionice. De noite na hora da ladainha, quando acender a vela eu te digo quem será o homenageado este ano do nosso batalhão.
- Me diz logo, mulher, tu sabe que velho morre quando ninguém espera. Vai que quando deitar pra cuchilar eu não abra mais os olho? A morte ouve a conversa dos vivo.

 

Sorrindo, Matilde deixou o fósforo sobre o altar para tudo está perfeito quando começasse a ladainha na boca da noite. Pensou nas palavras do marido, e achou engraçado – Vai que esse doido tenha razão – Por isso resolveu contar:
- Será o teu pai, João Cazumba. Tu lembra dele? Partiu há tanto tempo...

 

Ele não respondeu, revirou o último gole de café, e espiando para a porta da casa, viu o pai entrando. O mesmo bigode escuro no rosto, chapéu de palha na cabeça, camisa surrada, calça enrolada na canela e sandália de couro arrastando no chão. O seguiu com os olhos, enquanto o pai atravessava a sala. Na metade do caminho, as roupas mudaram. Tudo era colorido e cheio de brilho. Com o chocalho na mão, o pai o encarou e sorrindo lhe perguntou:

- Não vai me ajudar a por a torre na cabeça?

 

Apolinário duvidou se daria conta, pois naquela idade até andar havia desaprendido. Mas não é que conseguiu? Deixou o bastão de lado, pois sentia as pernas como no tempo de menino. Levantou a torre e ajeitou na cabeça do pai. O velho sorriu, já transformado em cazumba. Beijou a cabeça do filho, com aquele mesmo cheiro de cigarro, e desapareceu, feito fumaça, dançando lá para as bandas do quintal, onde o vento com sem-vergonhice atiçava ainda mais as bandeirinhas.

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